CONCURSO MR. LEATHER BRASIL 2026 – ENTREVISTA DO CANDIDATO
Conte-nos quem é você e como prefere ser chamado (nome, apelido ou nick).
Meu nome é Jefferson, mas pode me chamar de Dom Jheff, tenho 31 anos e sou não só amante do couro mas adepto ao BDSM, dominador e sádico, além de muito fetichista, costumo misturar o fetiche estético, comportamental e sensorial em minhas sessões e em comunidade busco sempre ser o mais presente possível e cuidar dos nossos.

- Quem é você além da imagem? Como começou sua relação com o universo Leather e quais experiências marcaram sua caminhada até este momento?
Eu desde muito novo me atraí pelos símbolos da masculinidade: Pêlos, força, e obviamente o couro estava presente, com um tio motoqueiro que teve uma boa parcela de participação na construção da minha sexualidade, cresci querendo estar rodeado de pessoas daquele jeito, morando no interior (São Carlos) tive acesso aos moto clubes e durante um tempo ate rockeiro eu fui pra me enturmar com essas pessoas, eu lembro de me sentir mais másculo (e isso me ajudava a lidar com minha homossexualidade e o fato da minha família não me aceitar e aos 16 eu ja ter de sair de casa), pertencente aquele grupo, mas de forma muito superficial pois a maioria era hetero de direita e com posicionamentos complicados. Em 2017 eu estava num emprego que me pagava melhor, e ai ja admirava as fotos das pessoas e eventos que rolavam na capital, agora eu tinha oportunidade de participar de eventos como Leather na rua, e festas como a Brutus, que foram essenciais pra aceitação do meu corpo gordo dentro desse mundo e foi o suficiente pra me fazer traçar um objetivo: me mudar para São Paulo, eu preciso conviver com essas pessoas que me entendem, me aceitam e que pertencem ao universo que eu tanto me apaixonei, o fetichista. Em 2020 consegui realizar esse objetivo, porém junto com ele veio a pandemia e a escassez de eventos, foi então que surgiu a oportunidade de trabalhar nesse meio, na loja Mr. Daddy, que tinha um dos seus valores era atender ao publico plus size, e cheguei a negociar com diversos produtores para fazerem harness, jockstraps e outros vestuários em tamanhos maiores, muitos deles exclusivamente pra nós, o que fazia com que a loja se tornasse a casa dos ursos fetichistas. Tendo maior contato com os organizadores e produtores da cena eu comecei a organizar eventos também, e no bar Dominatrix Augusta eu organizei a “Leather Night” onde eu introduzi a cultura Leather através de workshops, performances, tivemos ate um bate papo com os Mr leathers sobre como foi a experiência do concurso e como cuidar de couro, e la também incentivava o hábito de lustrar botas junto com meu sub e marido Rod, instigando quem sabe um dia um bootblack. Esse evento também levava o publico gay ate a casa que ate o momento era majoritariamente hetero. Como essa experiencia, a ausência de todos os demais concursos por conta da pandemia, e a necessidade de conexão entre as diversas comunidades eu decidi organizar o primeiro Mister/Miss Fetiche Brasil, que está atualmente indo para sua quarta edição, introduzindo essa cultura de concursos também em outras bolhas pois permite inscrições de pessoas de qualquer gênero e sexualidade, criando um lugar onde todo mundo se encontra pelo menos 1x ao ano, e que as marcas pudessem se juntar para se ajudar afinal marketing para lojas de artigos fetichistas no Brasil é quase impossível. E eu ajudo não só as marcas mas as pessoas que não tem condições de adquirir peças de valor mais agregado fazendo anualmente um bazar fetichista com doações da comunidade, onde todo o lucro também volta pra comunidade patrocinando o Mister/Miss Fetiche Brasil. Em 2026 a necessidade de criar um ponto fixo de encontro dessas pessoas e um local seguro de acolhimento e preparado para práticas, fez com que eu desse o maior passo da minha vida, abrir o Sodoma Lounge Bar. Antes eu fazia eventos no máximo mensalmente e agora estou criando 5 eventos por semana, sempre mesclando os públicos alvos na intenção de criar pontes e fazer com que essas pessoas se conheçam e se conectem. E tem sido também um ponto de encontro para os leathers, ja que faço questão de homenagear todos os vencedores de concurso (não só Leather e Mister fetiche) e fomentar essa cultura tão importante.

- O que você gostaria que o público e os jurados soubessem sobre sua vida, seus valores e sua trajetória fora da cena fetichista?
Sou um gay clássico, ou seja, tive de sair de casa muito cedo pois me assumi gay aos 9 anos de idade e minha família não aceitou muito bem esse fato. Natural do Espírito Santo me mudei junto com minha mãe aos 10 anos pra São Carlos, no interior de SP para iniciar uma vida nova, e aos 16 anos quando ja conseguia trabalhar com contrato, sai de casa, e desde então me viro e vivo com a família que eu escolhi. Sou uma pessoa extremamente focada no trabalho por conta disso, e valorizo muito as comunidades que se apoiam, pois desde cedo eu só tenho elas pra me segurar. Trabalhei como vendedor minha vida toda, e isso me tornou uma pessoa muito competitiva também, e isso reflete em tudo que eu faço.

- Por que você decidiu concorrer ao título de Mr. Leather Brasil e o que essa conquista representaria para você, tanto no âmbito pessoal quanto comunitário?
Eu sou apaixonado por couro, pelo toque, estética, som, cheiro, então ser o Mr Leather Brasil é um sonho que se intensificou a cada ano que eu estava mais inserido nesse universo. Seria pra mim a validação de todo meu trabalho até aqui também, mostrando que estou no caminho certo para ajudar as diversas comunidades fetichistas, principalmente a Leather que é a que eu estou mais inserido. Decidi concorrer ao título pois eu acredito que eu tenho todos os requisitos para ser um ótimo representante, pois eu tenho prazer e orgulho de trabalhar na cena e vou continuar a trabalhar nela ainda mais.

- Se conquistar o título, qual será sua principal missão? Que projetos, ações ou iniciativas deseja desenvolver para fortalecer a comunidade Leather no Brasil?
Quero atuar ainda mais na democratização do acesso ao gear, para pessoas que tem baixa renda e para pessoas de corpos gordos. Conversando com os produtores, as marcas, e através do bazar anual que quero tornar semestral. Também quero popularizar a cultura de lustrar botas, e construi em meu bar um espaço voltado a isso com uma cadeira de engraxate toda de couro, pra com o tempo termos também o Mr Bootblack Brasil. Mas principalmente, eu quero ser inspiração pras pessoas, que um cara gordo, e não heteronormativo, pode estar em posição de destaque e que nós existimos e merecemos respeito e acesso a gear e a possibilidade de expressar e viver nossos fetiches com orgulho.

- Como é sua participação na cena Leather? Existem pessoas, eventos ou experiências que tiveram papel importante na sua formação?
O primeiro que me fez conhecer esse universo foi o Leather na rua, que hoje não existe mais, mas sou eternamente grato. Depois vim a conhecer o jantar leather que me aproximou das pessoas e me fez me sentir pertencente a esse mundo, e que continuo frequentando ate hoje, afinal hoje tenho a honra de receber esse encontro no meu bar, o Sodoma. E de certa forma todos os Mr Leathers anteriores tiveram papel importante na minha história, pois são as referências que eu tenho, tanto estética quanto comportamental, sempre busco conselhos e inspiração neles.

- Como você avalia o momento atual da comunidade Leather no Brasil? Quais desafios e oportunidades você enxerga para o futuro?
Eu sinto que a pandemia deu um grande “reset” na comunidade Leather, desde 2022 ela tem voltado a se unir e crescer, porém mitos antigos precisam ser desmistificados, e precisamos mostrar pra galera antiga que a cena mudou e que todos podem contribuir inclusive com essa mudança, e mostrar pra galera nova que somos receptivos e acolhedores, a cara de malvado nas fotos se desfaz pessoalmente e todos são bem vindos, nem que seja apenas com um acessório, ou admirador, mas que isso seja cada dia menos “elitizado”.

- Quais qualidades, experiências e valores você acredita que pode oferecer como representante da comunidade Leather brasileira?
Sou referência de trabalho, dedicação, paixão pela cena, e luta pelos que precisam. Como alguém que organiza eventos e tem uma casa fetichista, eu conheço as pessoas da cena e as suas dificuldades, dores, e carências, e por isso sou o ideal para representa-las, pois tenho as ferramentas para agir de forma direta nesses pontos.

- Na sua visão, o que realmente significa carregar o título de Mr. Leather Brasil?
Significa moldar uma geração, ter os holofotes voltados pra você e ter a responsabilidade de usar isso da melhor forma possível não em beneficio próprio mas sim do coletivo. Significa abrir portas pra seus semelhantes, e mudar a forma com que essas pessoas se enxergam. É uma responsabilidade imensa pois esse destaque também coloca seu comportamento em evidência e devemos dar bom exemplo.

- Existe alguma peça de couro, acessório ou símbolo que tenha um significado especial para você?
Eu tenho um carinho especial por dois itens: um floggers da BDSM Luxury que era apenas do dono, eu me apaixonei pelo modelo e insisti até que ele fez um pra mim e até hoje é meu flogger favorito, e um bracelete de couro com a bandeira leather que foi feito especificamente pra minha “leather night” pela Lord Steel, que me marcou pois foi algo que eles nunca fizeram antes também.

- Deixe uma mensagem para os jurados, para seus apoiadores e para todas as pessoas que acompanham sua candidatura.
Não esperem um motivo pra agir pela comunidade, o motivo ja é que você faz parte dela, ninguém precisa de título pra inspirar, mudar a cena, ou pra construir algo transformador e foda, coloque sua essência em tudo que fizer e faça com sorriso no rosto que os frutos um dia chegam, cedo ou tarde.
