MESTRE CRUEL REVISA 2025: CONSTRUÇÃO, PRESENÇA E O FUTURO DA CENA FETICHISTA BRASILEIRA

Este espaço sempre foi feito para valorizar quem constrói a cena fetichista brasileira com trabalho, presença e entrega. Por isso convidei o Mestre Cruel para escrever sobre o reinado dele como Mr Fetiche Brasil 2025. Ele viveu um ano intenso, cheio de ações, viagens, projetos e responsabilidade com a faixa. É alguém que esteve na comunidade de forma ativa, representando o país com seriedade e mostrando o peso de ser um título nacional. Deixo aqui a palavra com ele para que vocês conheçam, em primeira pessoa, o que esse ano significou.

 

Olá queridos leitores do site do Dom Barbudo, como vocês estão? Aqui é o Mestre Cruel, Mr Fetiche Brasil 2025, e como estamos nos aproximando do meu step down, o Barbudo me convidou para escrever sobre como foi esse ano de 2025.

São muitas as coisas para falar, mas acho que eu não poderia começar sem agradecer à todas as pessoas que me deram suporte e força em múltiplos momentos desse ano, em especial à minha House, que esteve presente em muitos eventos, performances e ações ao longo desse ciclo.

E foram muitos, só de lugares, foram 27 diferentes, entre festas como a Let’s que estive em 13 edições, eventos como o Jantar Leather onde estive presente em 9 edições, isso tudo em 5 diferentes cidades do Brasil e do Mundo, sem falar nas 22 performances, 5 podcasts e 6 entrevistas acadêmicas. E olha que ainda estamos no dia 26 de Outubro (quando estou escrevendo isso) e a grande final do Mx Fetiche Brasil 2026 será apenas em 07 de dezembro.

Participei de muitos ensaios fotográficos também, e fui capa da [pós]CORPOS, mas minha primeira ação foi ainda em 2024, junto dos finalistas do concurso organizamos uma ajuda à Mr Daddy que passou por um alagamento e perdeu móveis e itens, participei da inauguração da exposição Histórias LGBTQIAP+ do MASP, e por falar em artes, fizemos uma caravana fetichista para assistir “Babygirl” e o espetáculo “A História do Olho”.

Mas o que mais me orgulho são dos feitos que ficarão para nossa comunidade de forma mais contundente. Em primeiro momento a retomada do contato mais direto com a cena fetichista latino americana, compartilhar sobre a nossa cena com os membros da AFLL, recebê-los na semana da Parada SP, poder colocar o Brasil de volta ao lugar de destaque na cena internacional é algo que me orgulharei sempre. Além da AFLL também ajudei na construção do concurso Aqueleather do México, sendo convidado a reuniões para falar sobre o trabalho e o peso da faixa.

Esse contato com a cena Latina foi uma ponte necessária para o convite para participarmos do World Fetish Show Contest, onde colocamos a nossa comunidade artística fetichista para criar um clipe musical, a primeira fase do concurso será online em dezembro e, se formos à final, teremos o Brasil divulgado na Darklands, em Março na Antuérpia. Um clipe que contou com a minha direção, mas que usou das múltiplas capacidades artísticas da nossa comunidade, onde 100% das funções e elenco eram de pessoas da cena fetichista. Aliás, fiquem de olho a semifinal online ocorrerá no dia 13 de dezembro.

Aqui no Brasil pude realizar ações importantes como o Bazar Fetichista e a Concentração Fetichista que são subprodutos do Grupo Fetiche Brasil, o Calendário Fetichista que mensalmente divulga os eventos da comunidade fetichista Brasileira e o grupo de representantes de evento fetichistas. O Calendário já divulgou eventos e cursos em Belo Horizonte, Brasília, Curitiba, Goiânia, Juiz de Fora, Porto Alegre, Rio de Janeiro, Salvador e São Paulo e o grupo conta, atualmente, com a participação de 50 membros, além disso estive presente nas Paradas de São Paulo e Belo Horizonte, apoiei os fetichistas no Festival Vórtice de Arte, na PocCon, no Pop Porn Festival, na Feira da Diversidade e na Berlin Pride Art.

Obviamente, não poderia deixar de mencionar a minha presença na Folsom Europe que me aproximou da cena europeia e deixou muitos surpresos com nossa genialidade e presença, destaco sempre que todos ficaram chocados quando dizia que o nosso Mx Fetiche era uma competição de três meses, com a formação de um Top 10, seguido de uma semifinal com um Top 5 e um mega evento para elegermos a próxima pessoa a representar esse país continental, eu ouso dizer que o Mx Fetiche Brasil é o maior concurso de um país do mundo e o 3º maior concurso da cena, ficando atrás apenas dos Internacional Mister Leather e Rubber.

Isso sem contar o quão avançados nós estamos no quesito inclusão na comunidade, nossa cena é hoje muito mais plural do que muitos espaços internacionais, há países onde não é possível uma mulher ou uma pessoa trans participar de um concurso fetichista. Há festas, muitas, onde mulheres não podem entrar. E sim, sei que, infelizmente, ainda vemos esse tipo de festa aqui no Brasil, mas são poucas e as que são fetichistas são menores ainda. Poder viver a experiência internacional foi uma vacina anti-viralatismo, algo que já sabia, mas pude testemunhar, nossa cena não deixa em nada a desejar a cena internacional. Mesmo correndo por fora, estamos bem na frente no que diz respeito aos membros da comunidade.

Claro que há muito a se percorrer, mas acredito que precisamos de força econômica e política. Eu tenho a mais absoluta certeza que o Brasil organizaria uma Folsom muito melhor do que a Alemã, e digo isso com toda a humildade do mundo. O que nos falta é suporte, e nisso estamos bem atrás, muito por uma cizânia egóica, onde muitos players preferem realizar pelo seu ego pessoal, muito pela falta de entendimento do jogo político, foi muito assustador ver que o prefeito distrital estava no evento de abertura da Folsom, discursando na frente de um bando de gente vestindo couro, látex e máscaras de cachorro. É uma ação inimaginável no Brasil, muito por falta de uma força política comunitária que mostre aos políticos o quanto isso movimenta a economia de um país ou cidade.

Isso é um trabalho que requer uma comunidade, eu acredito que uma “Folsom Brasil”, poderia começar em um evento privado, para então conquistar o espaço público. O Dom Jheff diz que o Mx Fetiche é uma mini Folsom, esse ano o concurso terá a presença de 21 marcas, é de fato algo grandioso, mas nós podemos mais! Nossas empresas fetichistas podem aproveitar as pessoas que nos representam com os títulos e apoiarem em busca de um mercado internacional.

Todas as viagens que fiz, inclusive a Folsom, foram feitas com investimentos próprios, todas essas ações poderiam ser apoiadas pelas nossas grandes lojas, eu, infelizmente, não pude ir à Malpaso representar o Brasil como jurado do Mr Fetiche Europa por falta de dinheiro mesmo. E sim, sei que é um privilégio grande poder viajar para essas coisas, e que nós temos muita desigualdade financeira na comunidade. Tanto que, só fiz a vakinha por “pressão” de alguns amigos.

É algo comum internacionalmente, que a comunidade local apoie e incentive seus representantes, e sim, eu entendo que uma pessoa que viaja da Alemanha para a Suécia, é muito mais simples e barato do que viajar de São Paulo para Berlin. O Mr Leather France tem feito uma tour pelos eventos Bluf da França. Mas a Europa tem uma malha ferroviária que conecta as principais cidades, há um TGV de distância, além de que a Europa inteira cabe dentro do Brasil.

Ainda assim, nossas empresas poderiam ajudar com suporte para levar nossos futuros representantes cada vez mais longe, basta que nós saibamos lutar com as armas que temos. Nossa moeda é mais fraca e isso pode nos deixar mais fortes. Empresas, sejam internacionais!

Nossa fui longe nessa conversa, mas é um pouco de um espírito de podemos mais, eu sei que podemos, por vezes me assola esse pensamento de que, apesar de ter feito muito, ainda falta muito. Espero que a próxima pessoa que vencer possa seguir lutando por nós, para que alcancemos cada vez mais o lugar que merecemos.
Eu acredito no potencial do Brasileiro, nossa relação com o fetiche vêm de um lugar distinto do Europeu ou Estadunidense, nossa cena é latina, tem sabor, tem tempero, tem calor. Somos fetichistas mais livres, sem amarras com um passado, mas com raízes para um futuro belíssimo.

Por falar em futuro, cabe agora pensar o step down, sobre ele, há muitas coisas acontecendo, algumas eu ainda não posso falar, outras já são mais concretas, meu podcast Confissões Consentidas é meu bebezinho que estou criando há algum tempo e que finalmente irá ao ar no dia 6 de Novembro, em uma ação como patrocinador gold do Mx Fetiche 26, nosso primeiro episódio será com o Dom Jheff e nos dias, 13; 20; 27 de Novembro e 4 e 5 de Dezembro, iremos exibir uma entrevista com cada um dos finalistas do concurso.

A idéia do Podcast é conhecer nossa comunidade, quero sentar e conversar sobre quem são nossos fetichistas, de onde eles vieram, os caminhos que os fizeram chegar na cena. Têm sido conversas muito gratificantes e conhecer as histórias das pessoas é uma forma muito rica de conhecer a nossa própria história.

Além do podcast, já me comprometi publicamente a ajudar quem vencer o concurso no que for necessário, sendo um bom Sashdad para ela. Ainda não me decidi se irei concorrer pro IML 26, muitas coisas têm pesado nessa decisão, que perpassa por questões financeiras mas também por questões políticas, isso é um papo pro futuro, mas assim, marcas, estamos aí, né!? Outro foco que terei no próximo ano é começar a organizar nossos Blufs Social, para voltarmos a ter um concurso Leather, afinal de contas quanto mais representantes, mais plural seremos.

E por fim, quero terminar agradecendo novamente, vocês me proporcionaram um dos melhores anos da minha vida e sem dúvidas o melhor no âmbito fetichista, serei sempre humildemente grato a essa comunidade e a todos os que nela vivem, sei que é hora de outros brilharem e que juntes possamos criar uma constelação.

Respostas de 3

  1. Sou Luis Pirato, da Argentina, do Leathermen Argentina #LMA, e estou muito feliz por ter descoberto a cena fetichista de São Paulo, que é maravilhosa. Estou envolvido com BDSM/fetichismo há cerca de 28 anos e aqui encontrei um lugar especial para vivenciar e desfrutar disso. Obrigado a toda a comunidade paulistana.

  2. Lindo texto amigo. Necessário e faca na ferida. Enquanto a Educação Sexual não for atingida num patamar maior, positivando o sexo e o fetiche, não iremos ampliar esse acesso e investimento. Enquanto e a importäncia q damos aos espaços, encontros, e as poucas marcas onde tudo, onde tudo isso se culmina e se retroalimenta, é base de vida pra muitos. Continuemos!

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