APRESENTAÇÃO DO SEMIFINALISTA – MR/MISS FETICHE BRASIL 2026
Apresentação – Conte-nos quem é você e como gosta de ser chamado nome ou nick?
Sou a Mistress Bruna, 28 anos, graduanda em Psicologia, pesquisadora (beirando a antropologia) da sexualidade, desejo e subjetividade. Me dedico a investigar as camadas mais profundas da psique, onde o desejo encontra a linguagem, o trauma se inscreve no corpo, e a autonomia nasce do reconhecimento de si. Gosto de ser chamada Mistress, não como símbolo de hierarquia, mas como afirmação da consciência e da responsabilidade de conduzir o outro por territórios onde o corpo e a mente falam com liberdade. Minha presença no BDSM é política, sensorial e psicossomática, atravessada por estudo, ética e entrega.
Minha trajetória é interseccional: mulher cisgênero, LGBTQIAPN+, umbandista e Dominadora no BDSM. Essa vivência, longe de ser marginal, é fonte de conhecimento encarnado, um campo onde aprendi, com intensidade e ética, sobre cuidado, poder, escuta e limites. Minhas falas sobre inclusão, desejo e transformação nascem da carne e da escuta. Porque pluralidade, para mim, não é discurso: é corpo em prática, é linguagem ancestral. É compromisso com o coletivo e com as encruzilhadas que me formaram e me movem.

1 – Conte quem é você além do visual: como começou sua relação com o fetiche e o que o trouxe até aqui hoje?
Além do visual, eu sou a mulher que aprendeu a quebrar regras sem perder a ternura. Cresci em um ambiente onde me ensinaram a obedecer, a esconder o corpo e a calar a voz. Fui obrigada a casar aos 17 anos com um homem quase quarenta, senti a violência, conheci as ruas e por muito tempo, me disseram que submissão era destino. Mas eu escolhi romper, romper o silêncio, romper a moral que me prendia, romper a ideia de que liberdade e amor não podiam coexistir.
Carrego na pele as marcas dessas rupturas, mas também o cuidado de quem entendeu que rebeldia não é destruição: é criação. Hoje, minha força não está em confrontar por ódio, e sim em existir com consciência. Construo pontes mesmo quando o caminho é áspero, porque acredito no poder do encontro, na escuta e no afeto como forma de resistência.
Sou uma mulher filha de Oxum e Exu que me ensinam a unir doçura e fogo, beleza e verdade. Minha presença é política, espiritual e afetiva. Não sigo padrões, mas também não vivo à margem: habito o entre, o espaço onde as coisas se misturam e o novo se torna possível. Além do visual, sou a soma do que ousei transformar. Sou firme sem ser dura, doce e nunca submissa. Quem aprendeu que quebrar regras pode ser um ato de amor e que curar o mundo começa por não se trair.

2 – O que você gostaria de contar para que a população e os jurados saibam mais de você? Quais seus fetiches?
Freud dizia que o desejo é o que nos move, o que denuncia nossas faltas e nossas buscas mais profundas. É nele que se revelam as contradições entre o que a sociedade permite e o que o corpo pede em silêncio, é nesse espaço, entre o recato e o instinto, que eu habito e trabalho.
Seja nas sessões presenciais de BDSM, mentorias, consultorias sobre sexualidade e BDSM, relações D/S, palestras corporativas sobre inclusão, toco o outro com consciência, presença e autonomia. Cada contato é uma escuta, do corpo, da respiração, do limite, da narrativa, contexto histórico, social-econômico, político. Não se trata apenas de prática, mas de linguagem. Um modo de acessar camadas ainda invisíveis, aquelas onde o prazer encontra o medo, e o controle se transforma em confiança. É ali, nesse espaço seguro, que o outro se permite sentir sem precisar performar. E é também ali que o meu papel se revela: conduzir, acolher, provocar e devolver ao outro o poder que ele mesmo carrega.
O BDSM, para mim, vai além da comunidade ou dos espaços alternativos. Eu me relaciono com pessoas de diferentes universos, porque acredito que o desejo é universal, ele não pertence a um grupo, e sim à condição humana. Cada relação que construí, dentro ou fora do fetiche, é sustentada por diálogo, respeito e busca de evolução pessoal.
Meu trabalho, meu prazer e minha espiritualidade se cruzam nesse território: o do desejo consciente. Quero que saibam que o que faço não é apenas tocar corpos, mas abrir caminhos para que as pessoas se encontrem consigo mesmas. O fetiche, quando vivido com ética e verdade, é uma via de autoconhecimento. E o que me move é exatamente isso revelar, através do desejo, o que a alma já sabe, mas o mundo insiste em esconder, subjugar e abominar.

3 – Por que você decidiu se candidatar a este título e o que ele representa para você, pessoalmente e comunitariamente?
Me candidatei porque vejo neste título uma oportunidade de ocupar um espaço que vai muito além da estética ou do reconhecimento pessoal. Ele representa a afirmação de uma história ‘a minha’ e o compromisso de usar essa visibilidade para ampliar conversas urgentes sobre desejo, poder e liberdade. Cada passo que dei até aqui foi guiado pela coragem de romper padrões, pela firmeza em sustentar minhas escolhas e pela vontade de construir pontes com afeto, ética e consciência.
O título, para mim, não é apenas uma conquista simbólica, mas uma plataforma de transformação, quero mostrar que o BDSM é plural, que nele cabem corpos, identidades, trajetórias e subjetividades diversas. Que não se trata apenas de prática sexual, mas de um fenômeno político, social e até econômico, que revela como o prazer, o poder e o corpo são moldados e controlados na sociedade.
Comunitariamente, o BDSM é um espaço de resistência e reeducação, a chance de ampliar o diálogo sobre saúde sexual, educação, respeito aos corpos marginalizados e o direito de existir e sentir sem culpa. É sobre devolver dignidade ao desejo, tratar o erótico como parte da experiência humana e construir novas formas de relação baseadas em consentimento, comunicação e liberdade. Afirmar que minha presença não é apenas individual, ela é coletiva, um ato político, espiritual e afetivo. O título representa o poder de transformar dor em potência, e o desejo em linguagem de cura e consciência.

4 – Se você conquistar este título, qual é o principal propósito ou projeto que deseja desenvolver para a comunidade fetichista?
Se eu conquistar o título, meu propósito é transformar essa conquista em uma plataforma de diálogo, acolhimento e educação. Quero que ele sirva para dar visibilidade a uma vivência que une desejo, consciência e cuidado e mostrar que o BDSM pode ser espaço de escuta, aprendizado e transformação social.
Meu projeto é ampliar o acesso a informações seguras sobre sexualidade e práticas consensuais, criando pontes entre a comunidade BDSM e o público fora dela. Quero promover rodas de conversa, mentorias e formações que abordam temas como saúde sexual, limites, consentimento, autocuidado, comunicação e prazer consciente. Desejo também desenvolver ações que conectem o BDSM a pautas sociais mais amplas: combate ao preconceito, valorização dos corpos dissidentes, inclusão de pessoas LGBTQIAPN+ e o reconhecimento do erotismo como dimensão legítima da existência humana.
Quero que o título seja um símbolo de representatividade, mas também de responsabilidade, que sirva para inspirar outras pessoas a olharem para o próprio desejo sem culpa, a se relacionarem com mais presença e autonomia, e a compreenderem que o poder, quando vivido com ética e afeto, pode ser ferramenta de cura. Seguir construindo pontes: entre o erótico e o político, o espiritual e o humano, o individual e o coletivo. Que o título não seja um fim, mas um meio de continuar educando, acolhendo e despertando consciência através do desejo.

5 – Como é sua ligação com a cena Leather/Fetish local ou internacional? Há pessoas ou momentos que marcaram sua trajetória?
O Leather me ensinou sobre disciplina, respeito e comunidade, mostrou que o fetiche não é apenas sobre prazer, mas sobre ética, cuidado e consciência. Aprendi a reconhecer o valor do ritual, da hierarquia simbólica e da responsabilidade que existe em cada interação. O couro, o toque, os códigos e as tradições são extensões de algo muito mais profundo: o reconhecimento de quem se é e a coragem de viver isso com verdade.
Minha relação com o Fetish é também uma forma de honrar quem veio antes, pessoas que enfrentaram o moralismo, o preconceito e o medo para afirmar seus corpos e seus desejos. É compreender que o Leather sempre foi político: um movimento que nasceu de resistência LGBTQIAPN+, de afirmação do prazer como direito e de solidariedade entre corpos marginalizados.
Hoje, trago essa herança para o meu trabalho e minha presença na comunidade, busco unir o que o Leather me ensinou, respeito, disciplina, ritual, com minha abordagem de cuidado, diálogo e consciência. Minha ligação com essa cena é espiritual e ética: um pacto com a liberdade de ser e a responsabilidade de educar. Um dia isso também foi o sonho dos meus ancestrais.
O Leather/Fetish me lembra, todos os dias, que o poder não é sobre dominar o outro, mas sobre dominar a si e, assim, criar espaços onde o desejo possa existir com verdade e dignidade.
Aqui deixo meu carinho e memória, ao amigo querido e grande conselheiro, Tico do Couro.

6 – Após um ano de intensa dedicação do Mestre Cruel e um grande legado comol Mr Fetish 2025, o que você avalia da sua trajetória que foi importante para a cena e a comunidade fetichista e o que você pretende manter e trazer de novidade, se for eleito(a)?
Meu legado para a cena é o de integrar o erótico, o político e o espiritual em uma só linguagem, mostrando que o BDSM, o Leather e o Fetish são caminhos legítimos de autoconhecimento, pertencimento e transformação social. Quero deixar como marca a consciência de que o poder, quando vivido com ética e presença, pode curar, educar e libertar.
A inovação que trago está em unir teoria e prática, alma e corpo, prazer e reflexão, transformar o espaço fetichista em um território também de diálogo e aprendizado. Quero ampliar o olhar sobre o BDSM, tirando do estereótipo e trazendo para o campo do sensível, do simbólico e do político onde se fala sobre sexualidade, mas também sobre identidade, saúde mental, afetividade e emancipação.
Meu legado é construir pontes entre o mainstream e o underground, entre a comunidade e o público que ainda teme ou desconhece o que fazemos. É mostrar que o Fetish pode ser vivido com beleza, consciência e responsabilidade. E minha inovação é ocupar esse espaço com ternura e firmeza. É ressignificar o domínio como cuidado, o prazer como presença e o corpo como veículo de verdade. Quero deixar como herança uma cena mais diversa, acessível, ética e acolhedora onde cada pessoa possa se reconhecer, se expressar e se sentir parte.

7 – Mande um recado para os jurados e seus fãs, o espaço é seu!!
Aos jurados e a quem me acompanha, eu vim afirmar a existência, não para representar um ideal, mas para encarnar a verdade do que sou: uma mulher que fez do desejo sua arma e da consciência, sua encruzilhada. O título que busco não é adorno, é ferramenta. É o grito de quem rompeu o silêncio, de quem transformou dor em poder, de quem aprendeu que o corpo é território sagrado e político.
Peço que olhem para além da superfície, cada marca, gesto e palavra que trago, carregam história, pertencimento, autonomia e entrega. O Leather, o BDSM, o Fetish e a sexualidade são mais do que estética, são resistência e revolução. São territórios onde o prazer desafia a moral, onde o corpo desafia a norma e onde a liberdade não pede licença.
Aos jurados, deixo claro: minha presença é ato político, minha prática é consciência, meu domínio é cuidado e minha força é ancestral. Aos fãs, à comunidade e a todes que me reconhecem no olhar, digo que carrego cada um comigo. Somos parte de uma mesma revolta: de existir sem pedir desculpas.
O fetiche e o desejo, é humano e viver com verdade é o gesto mais subversivo que existe. Eu não vim apenas competir, vim incendiar o medo, abrir caminhos e marcar território com coragem e amor. Com ou sem título, eu sou movimento e movimento não se coroa, se sente.

