ENTREVISTA COM LUI CASTANHO – SEMIFINALISTA MR/MISS FETICHE BRASIL 2026

APRESENTAÇÃO DO SEMIFINALISTA – MR/MISS FETICHE BRASIL 2026

Apresentação – Conte-nos quem é você e como gosta de ser chamado nome ou nick?

Me chamo Lui, ou Lui Castanho. Sou switcher, não-mono, transmasculino e vivencio o multifacetado mundo de sexualidades dissidentes desde cedo. Apaixonado por criar histórias e desvendar mundos, trago ludicidade e técnica para minhas práticas fetichistas. Atuo na área da cultura como artista circense, roteirista e produtor cultural, e trabalho pela construção de imaginários em que a diversidade e o fetiche são possíveis, legítimos e celebrados.

1 – Conte quem é você além do visual: como começou sua relação com o fetiche e o que o trouxe até aqui hoje?

Minha relação com fetiche começou no início da vida adulta. Por um lado, a dissidência de gênero e sexualidade já me colocava em um lugar mais afastado na norma. Por outro, o início da transição hormonal com testosterona (sou uma pessoa transmasculina) me incentivava a explorar o corpo de uma maneira expandida, para além daquilo que o sexo genital pudesse promover. Foi aí que as primeiras experiências começaram a acontecer, neste momento ainda sem nenhum domínio de nomenclatura específica. Além disso, meu trânsito no mundo da performance e da arte contemporânea me possibilitou o encontro com algumas práticas. Mas foi somente quando encontrei plataformas e fóruns de fetiche e BDSM na internet que as práticas foram ganhando nomes e contornos mais definidos. Sou uma pessoa bastante curiosa e que gosta muito de estudar e não foi diferente com fetiche: devorei uma infinidade de fóruns, textos, debates, tutoriais, dicas, além de consumir muitas imagens e vídeos. Era sobretudo uma forma de aprender mesmo morando em um local bastante afastado e com pouco acesso à comunidade. Em 2016 comecei a estudar shibari e, com algumas parcerias, levantamos fundos para levar uma oficina de shibari para a comunidade local, como uma forma de aprendermos ao vivo com uma profissional e compartilhar o conhecimento com outras pessoas interessadas. Nos anos subsequentes, mantive as práticas com pessoas próximas e parceires. Mais tarde, tive a oportunidade de visitar os EUA algumas vezes e entrar em contato com as comunidades de lá. Foi lá que fiz o curso de Fireplay e desde então trabalho para divulgar, disseminar e adaptar essa prática para a realidade brasileira. Moro em São Paulo faz 5 anos, e desde então frequento a comunidade local. O fetiche faz parte integralmente da minha vida, não estou em nenhum armário: nem como trans, nem como fetichista. Trabalho na área da cultura, como produtor cultural, roteirista e artista circense e, mesmo em meus trabalhos fora do meio, trago o debate sobre sexualidade dissidente em tudo o que promovo. Acredito que a cultura é um campo estratégico para ampliação de imaginários e considero que o trabalho que desenvolvo contribui com a desestigmatização do fetiche e das sexualidades dissidentes.

2 – O que você gostaria de contar para que a população e os jurados saibam mais de você? Quais seus fetiches?

Sou switcher, mas jogo majoritariamente como dominante. Atualmente tenho três D/s, todas como dominante, e a mais antiga delas tem 3 anos e meio. Sou bissexual e faço parte do espectro ace.

Sou uma pessoa com interesses e práticas bastante variadas no meio fetichista. Acredito que sou mais conhecido pelo Fireplay, Whipcracking/BullWhip e Shibari – de fato são as práticas que mais levo para as cenas abertas e performances; mas fora do palco pratico uma diversidade de fetiches dentre eles: ageplay, impact, trampling, wax, bondage, needle, primal, tortura genital, teasing and denial, tickling, entre muitos outros.

Tenho muito apreço por aprender a técnica das coisas – saber realizar uma prática com maestria é quase um fetiche a parte pra mim – e sou bastante “nerd” com as práticas que gosto. Além disso, eu sou apaixonado por criar mundos e histórias (tanto que sou roteirista), então minhas sessões costumam trazer muito roleplay e narrativas excitantes.

3 – Por que você decidiu se candidatar a este título e o que ele representa para você, pessoalmente e comunitariamente?

Decidi me candidatar porque acredito que posso contribuir com a comunidade fetichista. Pessoalmente, este título representa um compromisso com quem eu sou, o orgulho pela minha trajetória e a responsabilidade de seguir um caminho fiel à minha verdade. Comunitariamente, o título de Mx Fetiche é um título de representante, que pressupõe contrapartidas à comunidade fetichista brasileira. Portanto, em minha candidatura, trago a valorização da segurança e do acesso à informação, fomentando uma comunidade mais segura, consciente de seu contexto e agente de sua história. Além disso, ao conquistar este título, ajudaremos a escrever uma página histórica: uma pessoa trans na representação da comunidade, afirmando e celebrando nossa diversidade.

4 – Se você conquistar este título, qual é o principal propósito ou projeto que deseja desenvolver para a comunidade fetichista?

Meu principal propósito é fomentar o acesso à informação em português. Para tanto, tenho dois principais projetos:

(A) Lançamento de um selo de publicações fetichistas, que reunirá informações sobre práticas, bases de segurança, história, entrevistas, entre outros. O intuito é de criar um selo formal, que conte com revisão, tradução profissional (quando for o caso), e registro ISBN, para facilitar a citação e validação;

(B) Iniciar uma plataforma com vídeos de tutoriais de práticas, voltados especialmente para questões de segurança, com conteúdo 100% em português (semelhante ao kinkacademy). Essa plataforma, além de promover o acesso à informação, também serve ao propósito de condensar uma lista de profissionais referência nas diversas áreas e que oferecem cursos presenciais.

Além disso, tenho o projeto de montar uma exposição em parceria com órgãos públicos, abordando o fetiche por um recorte artístico, valorizando profissionais que trazem esse olhar.

Todas essas ações estão dentro da minha área de expertise e, portanto, são possíveis de realizar. Sou produtor cultural, já publiquei alguns livros e tenho experiência em trabalhar com o poder público. Dentre os projetos culturais que já executei através de editais estão dois que possuem fortes ligações com fetiche: “Cisforia” (História em Quadrinhos, 2023) e “Espetáculo Cancelado” (Circo, 2024), ambos contemplados em primeiro lugar de suas categorias no Programa de Ação Cultural do Estado de São Paulo.

5 – Como é sua ligação com a cena Leather/Fetish local ou internacional? Há pessoas ou momentos que marcaram sua trajetória?

Moro em São Paulo há 5 anos e frequento a cena local desde então (com exceção do período pandêmico, por motivos óbvios). Como qualquer pessoa, tenho alguns lugares/eventos que tenho mais afinidade e frequento mais, mas tento circular por todos os ambientes. Viajo bastante por conta de minha profissão e aproveito sempre para conhecer comunidades fetichistas de outras cidades, levando a oficina de Fireplay sempre que possível. Com a oficina já estivemos em Curitiba, Brasília, Goiânia, Florianópolis e Porto Alegre, e estamos negociando para levá-la ao Rio de Janeiro, Belo Horizonte e interior de São Paulo no ano que vem.

Já visitei algumas cenas nos EUA, especialmente em Tucson/AZ (onde fiz curso de Fireplay) e em San Francisco/CA. Tive a oportunidade de passar o mês do orgulho em San Francisco e participar das comemorações da comunidade Leather/Fetish durante esse período e na Pride Parade. Foi uma experiência incrível, especialmente de ver tantas pessoas trans e gênero-dissidente em posições de destaque no meio fetichista, que em SF toma as ruas.

Além disso, participo de comunidades virtuais – canais, grupos de discussão e grupos de estudos sobre fetiche e BDSM – o que me permite entrar em contato com pessoas de diferentes partes do Brasil.

6 – Após um ano de intensa dedicação do Mestre Cruel e um grande legado comol Mr Fetish 2025, o que você avalia da sua trajetória que foi importante para a cena e a comunidade fetichista e o que você pretende manter e trazer de novidade, se for eleito(a)?

Eu destacaria dois pontos da minha trajetória para a cena e a comunidade.
O primeiro é o compromisso, desde o início, em promover acesso a informação de qualidade: seja produzindo oficinas de outros profissionais ou, nos últimos anos, conduzindo minhas próprias. Desde que realizei o curso de Fireplay nos EUA, trabalho para adaptar e democratizar essa prática à realidade brasileira. Tenho levado a oficina a diferentes cidades, mesmo quando o retorno financeiro é pequeno, porque reconheço a barreira de acesso para quem vive fora das capitais ou em regiões mais afastadas. Meu apreço pela segurança e meus estudos para além do fetiche (como pirofogista, acrobata e técnico de ancoragem) permitem contribuir para uma comunidade mais segura.
O segundo é meu papel de ponte, trazendo gente nova para o meio e acolhendo quem chega com orientação e cuidado. Por transitar e ser referência em outros meios – como o meio circense, a comunidade trans e a comunidade não-mono – acabo tendo diálogo com muita gente fora da bolha que acaba se interessando pelo fetiche. Esse impacto também se manifesta no meu trabalho artístico: como roteirista e artista da cena, crio narrativas sobre sexualidades e corporalidades dissidentes, ampliando o diálogo com o universo fetichista. Acredito que conseguimos furar a bolha de verdade quando a sociedade se torna menos refratária às nossas práticas; e, para isso, é preciso transformar o imaginário coletivo. Essa é precisamente minha atuação: usar a cultura e o entretenimento para abrir novos horizontes onde a diversidade e o fetiche são possíveis, legítimos e celebrados.
Se eleito, pretendo manter o legado do Mestre Cruel de aproximar a comunidade em várias frentes: fortalecer o grupo de representantes, sustentar e ampliar o Calendário Fetichista – que conecta pessoas do Brasil inteiro – e continuar construindo senso de pertencimento. Vou cultivar as pontes internacionais já iniciadas e buscar novas, aproveitando meu trânsito na comunidade trans para criar laços com coletivos ainda pouco conectados. Como novidade, quero impulsionar o acesso à informação em português, organizando e formalizando conhecimentos para que circule melhor e se traduzam em prática segura e fortalecimento da nossa rede.

7 – Mande um recado para os jurados e seus fãs, o espaço é seu!!

Muito obrigado pelo apoio e pelo espaço! Para além da bandeira da diversidade, levo comigo a responsabilidade, o cuidado e estabeleço pontes reais com comunidades fora da bolha. Quero consolidar informação em português, promover maior segurança e fomentar um diálogo cada vez mais vivo e ampliado. Se acreditam numa comunidade plural, informada e orgulhosa de si, contem comigo para fazer isso acontecer!

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